Assembleia Intermunicipal da AMPV reúne na PORVID

No próximo dia 27 de março, às 10h30, a Assembleia Intermunicipal da AMPV vai reunir nas instalações da PORVID — Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira, em Pegões. Será feita também uma apresentação da Porvid, pelo Prof. Antero Martins, e uma visita ao Pólo Experimental de Conservação da Variabilidade das Videiras Autóctones​.Nesta reunião da…

No próximo dia 27 de março, às 10h30, a Assembleia Intermunicipal da AMPV vai reunir nas instalações da PORVID — Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira, em Pegões. Será feita também uma apresentação da Porvid, pelo Prof. Antero Martins, e uma visita ao Pólo Experimental de Conservação da Variabilidade das Videiras Autóctones​.
Nesta reunião da Assembleia, que terá como principal assunto na ordem de trabalhos a aprovação do Relatório de Atividades e Contas de 2023, estão também convidados a intervir o Prof. Antero Martins, grande impulsionador do trabalho único e inovador desenvolvido por esta associação, e Nuno Canta, presidente da Câmara Municipal do Montijo, concelho onde se situa a Porvid.

Após a reunião irá realizar-se uma vista ao Pólo Experimental de Conservação da Variabilidade das Videiras Autóctones, seguida de almoço.
José Arruda, secretário geral da AMPV, explica que o local escolhido para a realização desta Assembleia “tem um propósito muito importante: reconhecer e divulgar o trabalho extraordinário, e no meu entender pouco conhecido, que é feito por esta associação. Nenhum outro país desenvolve um trabalho deste género e com esta dimensão, e que permite a identificação e preservação da biodiversidade da videira e da sua variabilidade intravarietal. Este trabalho é reconhecido internacionalmente mas em Portugal, infelizmente é pouco conhecido. Por isso desafiamos todos os autarcas da AMPV a conhecerem melhor esta associação e a visitarem o seu pólo experimental”.

PORVID desenvolve um trabalho único e inovador
A PORVID é uma associação sem fins lucrativos criada em 2009 com o objetivo de conservar e valorizar a diversidade genética das castas antigas e das populações silvestres de videira.

A sua criação visou materializar o legado histórico, metodológico e os resultados da Rede Nacional de Seleção da Videira. Em 2010, a PORVID celebrou com o Ministério da Agricultura um protocolo para a criação do Pólo Experimental de Conservação das Variabilidade das Videiras Autóctones, que foi sediado na antiga Estação Experimental de Pegões e cuja gestão foi confiada a esta associação pelo período de 50 anos.

Integrada por mais de duas dezenas de associados, entre os quais uma autarquia, institutos públicos, universidades, associações técnicas, empresas e empresários, a associação recolhe plantas em vias de desaparecimento em vinhas antigas, com prioridade para as que estão marcadas para arranque e conserva-as em coleções de diversidade de cada casta que são objeto de estudo.

Dos ensaios criados com o conhecimento gerado por estes estudos, realizam-se seleções policlonais que permitem que agricultores plantem vinhas que combinam eficiência económica com resiliência e sustentabilidade, além de manterem a diversidade natural original do património das castas originais de Portugal.

ENTREVISTA

Prof. Antero Martins e Prof.ª Elsa Gonçalves

1- Não é só em Portugal que a Porvid se destaca pelo trabalho inovador de conservação da diversidade genética das castas de videira. Este trabalho tem sido reconhecido também a nível internacional.Que trabalho é este e o que é que esta associação faz de diferente, comparativamente a outros países?
Começou por ser um trabalho de seleção clonal, iniciado em 1978 com a seleção da Touriga Nacional, pelo Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Trás os Montes e Alto Douro e Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária e logo alargado a outras várias castas de todo o país, com o concurso de uma rede informal de colaborações, a chamada “Rede Nacional de Seleção da Videira” e, a partir de 1909, pela então criada Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira (PORVID). As primeiras seleções da videira vêm dos últimos anos do século 19 na Alemanha, mas realizadas por métodos tradicionais empíricos que nunca evoluíram significativamente até aos dias de hoje. Pelo contrário, a seleção iniciada em Portugal fundada na teoria da Genética Quantitativa produziu resultados altamente significativos que vieram a impor outros desenvolvimentos, nomeadamente, a nova metodologia de seleção policlonal e a conservação em grande escala da diversidade intravarietal. A seleção policlonal foi já elevada a Resolução da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV-VITI 564B-2019) sendo, portanto, recomendada para aplicação no mundo vitivinícola. Desde 2023 está em curso um projeto para a implementação desta metodologia em Espanha (“Polyclonal selection for improving intra-varietal biodiversity and Iberian viticultural resilience”) e em Itália está em preparação uma ação idêntica. A conservação da diversidade obedece à condição original de contemplar amostras tendencialmente representativas da casta, cultivadas em vasos e em ensaios de campo e atinge um efetivo de mais de 33000 genótipos de mais 300 variedades, de longe o maior no mundo vitivinícola.

2- Quais os principais contributos que este trabalho traz para a vitivinicultura portuguesa?
Em primeiro lugar, a metodologia gera ganhos genéticos importantes e objectivamente quantificáveis das características alvo de seleção, directamente expressos em valor económico. Uma estimativa dos ganhos económicos à escala do país inteiro só devidos a aumentos de rendimento decorrentes do uso de materiais selecionados desde 1985 é de 10 milhões €/ano. Mas a seleção, tal como realizada entre nós gera vários outros tipos de valor: de qualidade, de estabilidade dos materiais em diferentes ambientes, de adaptação ao calor (material policlonal prestes a chegar ao mercado), de resistência parcial aos míldio e oídio (em estudo) e de imagem de conhecimento avançado do país nas áreas da diversidade da videira e dos materiais cultivados.

3- Este trabalho da Porvid permite também reconhecer que o vinho é mais do que o líquido que temos dentro da garrafa, também é história?
Sim, a origem antiga e a evolução natural das variedades, conferem elevado valor natural ao vinho. Por outro lado, o conhecimento original envolvente das variedades (como o aqui abordado e outros) conferem-lhe valor histórico e cultural.

4- Quantas castas de videira autóctones já foram identificadas em Portugal? E no Pólo Experimental de Pegões, quantos clones podemos encontrar ali?
No presente, estão conservados mais de 33 000 genótipos (clones), 5000 já com diagnóstico molecular que revelou pertencerem a 218 variedades registadas em bases de dados nacionais e internacionais e a outras cerca de 100 variedades que foram recentemente descobertas. Quando submetidos a diagnóstico molecular, os restantes 28000 genótipos e os que serão prospetados a curto prazo, irão certamente distribuir-se por aquelas duas classes, melhorando a representatividade da diversidade conservada das variedades já conhecidas e levando à descoberta de outras variedades. O objetivo é alcançar a meta de 50 000 genótipos de mais de 250 castas autóctones até final de 2025. Desde 2022 que a PORVID conta com o apoio do projeto PRR “Salvar a diversidade intravarietal de variedades de videiras autóctones” (PRR-C05-i03-I-000016), para a realização deste objetivo. Esta abordagem representa (folgadamente) a maior coleção de diversidade intravarietal da videira no mundo e a mais diretamente orientada para a representatividade da diversidade de cada casta. A descoberta de castas até aqui desconhecidas é um corolário das metodologias de análise da diversidade intravarietal e da natureza genética das próprias castas. Provavelmente, até há poucos séculos atrás não existiriam vinhas ordenadas como hoje, mas sim populações desordenadas e com reduzida intervenção humana, cujas plantas se cruzavam umas com outras, dando origem a novas plantas, ocasionalmente muito parecidas e que terão andado confundidas com uma das progenitoras. O contexto atual de intensas observações nas vinhas para efeito de seleção e de conservação e a existência de métodos moleculares expeditos de diagnóstico favorece a descoberta dessas castas até aqui confundidas com outras.

5- Ao longo dos anos, este trabalho tem certamente permitido fazer muitas descobertas… como por exemplo o facto de a Baga, com uma presença tão forte na Bairrada, afinal ter surgido no Dão. Ou, no nosso país vizinho, o Tempranillo que se acreditava ser da zona de Rioja, ter afinal surgido em Valdepenãs…
Este trabalho de estudo e de descoberta é contínuo e nunca estará “totalmente completo”. Sim, casos como o da Baga existem muitos e a análise da diversidade intravarietal pode ser um critério importante para confirmar, ou contrariar, informações escritas pré-existentes sobre a história da casta e da viticultura. A diversidade intravarietal é um mundo de informação sobre a casta, mas só submetida a decifração ocasional, quando necessário para determinados fins.

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